Hoje me perdi no tempo, quando alterei meu rumo e sentei na praça.
Meu peito encarava a rua, mas meus olhos encaravam o banco, a espera de uma oportunidade.
Primeiro que foi tolice, pois se eu desse sorte de te ver saindo pela porta da frente, você ainda estaria do outro lado da rótula e eu nunca conseguiria achar um jeito sutil de "te encontrar de repente".
Logo de cara então me preocupei: "Estou alucinando. Não trocamos nada além de um olhar e duas palavras, sequer teu rosto me era fresco na memória."
"Não faz sentido" - pensei. "O que passamos não foi suficiente nem para gerar uma cena, dessas das quais nós nos lembramos quando revemos uma pessoa desejada. Então porque eu desviei do meu trajeto e parei nesse lugar? Até onde eu sei, não era para eu estar pensando nela."
Foi pensando no porque pensava que percebi que eu menos pensava do que esperava. Esperava ter outra chance, para agir de forma diferente e preencher o vazio que deixei na conversa, logo depois que os sorrisos surgiram e pouco antes do assunto encerrar. Resgatei então aquele momento, onde lancei uma piada tola, confessando não ter te ouvido, e percebi meu ato falho de olhar de volta para a minha tarefa ao invés de te encarar e tentar qualquer ladainha que me fizesse te entreter por um pouco mais de tempo. Talvez esse tempo fosse o suficiente para ver um convite sair do meu silêncio e encontrar os sons de sua resposta.
Agora que já achei algo para justificar minha falta, poderia ir para casa, não queria passar por louco e tentar trocar mais palavras rasas com uma moça, que apesar de bela, sequer me conhece. As chances dela me entender errado são grandes, então voltei meus olhos para o mesmo sentido do corpo, mas continuei sentado.
Leve e vagarosamente meus olhos espiavam, como se procurassem um momento onde a mente deixa de se preocupar e simplesmente opera as funções de forma indiferente e distante. Só que essa distância foi logo encurtada quando o olho direito identificou seu corpo. Lá estava! Tão logo foi a identificação como o movimento de retorno que meus olhos fizeram em direção ao foco de origem, carregaram junto aos mesmos todo o meu corpo e mente quase que instantaneamente.
"É agora! O que eu vou fazer? Ela está lá do outro lado, como posso agradecer a atenção a mim dada ou dizer qualquer outra coisa que a faça me perceber?"
Foi quando me dei por conta de que passei uma hora divagando e que o reencontro poderia sim ser muito mal interpretado, então aceitei olhá-la mais uma vez e me despedir do futuro imaginário.
Na volta para casa senti que meu genuíno interesse estava em me aproximar de quem me fez me sentir bem, isto porque estão ficando raros os espaços que me sinto acolhido e quisto e este querer merece ser recompensado.
Então lhe entrego estas anotações, como um ato de afeto e paixão e espero que as aceite apenas com o que for possível extrair de bom delas.
O objetivo destas notas não é te convencer que devas me conhecer ou sair comigo, apesar dessas opções estarem disponíveis! O objetivo é muito mais singelo que isso. É apenas elaborar uma justificativa para mim mesmo e acalmar meus espíritos, além de te despertar para a verdade de que em ti há tanta beleza que é capaz de fazer um sensato rapaz questionar sua própria lucidez.