Foi no dia 6 de abril que eu pude somar mais uma experiência ao meu mural de lembranças.
Caminhava acelerado com o pé direito sempre mais a frente que o esquerdo. Saí do ônibus no terminal do centro e só consegui terminar de por minha mochila nas costas no meio do caminho. Estava atrasado.
Passei por asfaltos, paralelepípedos e escadas até chegar à praça XV onde pude reduzir o passo e começar a procurar um grupo de pessoas conhecidas que sentavam na escadaria da catedral logo em frente.
A apresentação foi simples e 10 minutos depois estávamos divididos em duplas para a nossa primeira dinâmica: reconhecer o popular.
“Vivo observando as pessoas e como elas interagem com o ambiente. Quem diria que isso seria adotado durante uma aula?”. Pensei ingenuamente ainda sem perceber que Paulo Freire não vive só em teoria e que fora do CTC seus métodos têm voz e vez.
Circulamos a praça, eu e Manoella, primeiro separados depois em conjunto. Ao andar senti o vento balançar as folhas das árvores e os pássaros pularem de prédio em galho. Observei os limites desse mundo: quatro estradas bem asfaltadas e barulhentas que faziam a sombra da Figueira ser resistência ao agito do mundo moderno.
- Bom dia! – cumprimentei o cidadão que trabalhava limpando a praça.
- B-Bom dia – respondeu curioso franzindo a testa esperando algum tipo de explicação ou pedido.
Deixei-o com sua vassoura e pá e com o pé esquerdo calmamente continuei a saudar os meus “colegas de praça”.
Parei um instante na grade que divide o gramado do piso da praça e anotei mentalmente “A praça XV é um encontro entre reinos e planos e se respirarmos fundo veremos luzes em trânsito que já não respondem mais aos seus encantos”.
- Muitas pessoas não se conectam mais com o mundo e poucos são os que vivem a realidade da Terra – Comentei com Manoella que segurava com um braço algumas folhas brancas rabiscadas de pensamentos.
“Não só de pão vive o homem” diria a evangélica retratada por minha colega sentada em um banco da praça que de noite servia de cama... “Nessa praça há mais que missionários, há moradores.”
José Carlos Ribas cheirava à praça e ajudou-me a entender um pouco mais sobre o dia-a-dia.
“O dia-a-dia é uma espécie em extinção, se me permitem dizer. Afinal, quem hoje ainda vive o presente?” Indaguei sozinho.
A conversa estava boa e doei meus ouvidos às palavras de José que o transformava em músico e tradutor de inglês na minha frente. Com seus dedos grossos de calões e sujos de asfalto ele anotara no meu caderno o endereço virtual onde eu posso baixar as músicas do nordestino gravadas no Rio de Janeiro.
Apoiei-me nos joelhos e ergui meu corpo, saldei novamente o colega de praça e voltei com minha colega de classe para o grande grupo, apenas com um pequeno desvio onde outro músico da praça emprestava os seus acordes para os meus ouvidos.
No grupo as duplas traziam suas vivências e alimentavam o grande caldeirão de idéias que com habilidade era mexido e dividido entre todos para que cada um saísse com o sabor da lembrança de cada outro.
Aquecidos agora novas duplas se formavam e com a espanhola Clara eu fui explorar a escola pública perto da escadaria. Desta vez a dinâmica foi mais rápida e infelizmente o portão da escola não cedeu às nossas batidas.
Uma volta e outra e tudo o que vimos foram crianças atrás das grades. Surpreendentemente os estudantes saíram do recreio diretamente para suas casas, cerca de uma hora e meia antes do meio dia.
- Olá, tudo bem? – perguntei a criança que saía da escola com o pé direito sempre a frente do esquerdo. Não obtive resposta.
Senti que o tempo que me restava para interagir com aquela criança era o tempo que ele tomaria para passar por mim pela calçada e terminar de por sua mochila. Tinha apenas uma munição e a atirei no alvo.
- Saindo da aula assim tão cedo?! – Perguntei fazendo graça do meu espanto. Por um breve instante a criança me encarou e respondeu com um sorriso tímido, mas verdadeiro:
- É...
Os olhos ágeis de Clara captaram certo padrão no comportamento dos jovens e uma zona de energia começou a aparecer em cada um. Os meninos no alto da escada com uma grande aura abriam espaço entre cada um deles para exercer sua dominância enquanto que as meninas se exprimiam com suas conversas em um canto da rua. Neste momento se fez claro a preocupação que se deve ter com a questão do gênero na educação.
Dados como satisfeitos bastou apenas descer as escadas e encontrar o grande grupo no museu em frente ao Bob’s.
Uma terceira, quarta e quinta dinâmica ocorreram e desde histórias sobre o museu à privatização dos espaços públicos foram abordadas.
Fragmentos do que fora uma exposição de arte encantou a todos e todos os encantos do que fora um jardim se fragmentou no tempo.
Alessandro Rodrigo Maiochi
27 de abril de 2011
